Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Post Scriptum

O que ficou por escrever.

Post Scriptum

O que ficou por escrever.

21
Jun17

Em caso de emergência

 

Sento-me na cama e abro os olhos.

Aclaro a garganta e puxo o gatilho.

Continuo a viver naquele prédio de dois andares.

Vi ontem nas notícias que o tinham demolido.

A imagem dos inquilinos a correr pela rua velha.

As moedas dos bolsos escorregavam e rolavam pela calçada.

Não me lembro de ter pedido ajuda.

Não me lembro do telefone a tocar.

E, no entanto, o fio branco cortado junto ao chão.

Costumava escrever numa agenda os números de quem me esquecia.

Procuro-a e não há gavetas cá em casa.

Paredes recém-pintadas.

Capítulos em números romanos.

As cortinas continuam na lavandaria.

Tudo o que faço é errado.

O soalho tem agarrado um cheiro antigo.

Deito-me no chão e oiço a sirene.

Engulo em seco e marco o código.

Lembro-me que não há nada para salvar.

 

FullSizeRender 3.jpg

19
Jun17

Mesmo o que não existe

 

Por detrás do céu que se desenha,

Nunca te encontrei sem a soma dos dias.

A desgraça de não seres o que te guia.

A impossibilidade de te guardar nas minhas caixas.

És longe do assobio mortal.

Se te mantiver aqui,

(Como quem protege o que é indefeso)

A finitude do tempo, a chuva por entre os ramos das árvores, o papel que arde sem se queimar.

Afinal não passam de enumerações.

Tristes desfiles de coisas que não me dizem nada.

Não falas.

Não falas e repito tudo o que podes dizer.

A tua boca move-se em contornos hipnotizantes.

Ser contente ainda sem a conhecer.

Porque existe.

Porque comove.

Porque toca sem sequer se ver.

 

FullSizeRender 2.jpg

08
Jun17

Um passo em falso, é tudo o que basta

 

Se pelo menos não fosse tudo tão mecânico:

Tão cheio de repetições e reflexos.

Talvez a noite demorasse a chegar,

E não me esperasses junto à porta.

Não suporto essas delicadezas.

Essas que eu plantei.

Não faço ideia do que fazes sem mim.

A tua existência tão insípida.

(Quase transparente)

Nem te lembras de perseguir o arco-íris.

Lá, ao fundo, por detrás do pote de ouro.

Junto à estrada dos perdidos.

Perpendicular à rota dos loucos.

Vês as marcas no chão?

Revoltas de quem se engana.

E depois não há nada a fazer.

O passado que nos guia sem permissão.

E tu,

criança negligenciada e solitária.

O que podes tu esperar de tudo isto?

 

Não há dia que não acabe,

E as trevas trepam por entre as fendas da parede.

 

FullSizeRender.jpg

Carolina Paiva

foto do autor

Acompanhem-me...

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Links

Os meus blogs

Direitos de Autor

© Todos os Direitos de Autor reservados nos termos da Lei 50/2004, de 24 de agosto. O autor/a autoriza a partilha deste(s) texto(s) e ou imagem(s), e ou excertos do(s) mesmo(s), desde que mantido no seu formato original, e seja obrigatoriamente mencionada a autoria do(s) mesmo(s).